5 Maneiras para as Pessoas com o “Privilégio Magro” Combaterem o Terrorismo do Corpo

27 de setembro de 2015, por Julie Feng em http://thebodyisnotanapology.com/magazine/how-people-with-thin-privilege-can-fight-body-terrorism/

 

 

 

Oi, galera do “privilégio magro” (vocês deveriam saber quem são): precisamos conversar. Estou vendo muita gente igualando as ofensas aos magros e aos gordos – e quero declarar, oficialmente, que isso é nocivo.

Existe uma diferença enorme entre ofensas contra magros e gordos – e é uma diferença de escala e de dinâmica do poder sistemático. Ofensas contra qualquer tipo de corpo são prejudiciais, inclusive microagressões a pessoas magras. Entretanto, a diferença entre se sentir magoado e a discriminação, a desumanização e a negação a direitos num nível sistemático é grande.

O terrorismo de corpo contra pessoas gordas é  insidioso e abertamente praticado dentro das instituições mais importantes da nossa sociedade: hospitais, escolas, no sistema legal e nos locais de trabalho.

Muitos estudos descobriram que pessoas gordas sofrem de uma discriminação profunda no trabalho: são mais propensas a serem demitidas ou suspensas, têm menos chances de serem contratadas, ganham salários menores em cargos comparáveis e são menos promovidas mesmo tendo desempenhos comparáveis no trabalho. Outro estudo mostra que 54% dos médicos acreditam que têm o direito de suspender o tratamento de pacientes “acima do peso” ou “obesos”. Você leu essa frase horrível corretamente: mais da metade desses profissionais que fizeram um juramento pela cura acha que é totalmente normal negar cuidados médicos a pessoas que buscam cuidados médicos!

Essas injustiças vêm de uma predisposição consciente e inconsciente contra indivíduos mais pesados. A magreza não é só um padrão de beleza. É também um falso medidor de saúde, bem-estar, energia, limpeza, ambição, inteligência e moral. Um estudo da Universidade de Alberta mostrou que, “quando uma pessoa magra é vista deitada vendo televisão, os outros presumem que ela está descansando. Mas, quando veem uma pessoa gorda relaxando, eles automaticamente presumem que ela é preguiçosa e desmotivada”.Porém, claramente, não é o caso.

Então, o que é o “privilégio magro”? É o fato de estranhos nos mercados e restaurantes nunca terem sentido a necessidade de comentar sobre o que tem no meu carrinho ou sobre a quantidade de comida no meu prato. É o fato de eu conseguir achar roupas do meu tamanho em qualquer lugar. É o fato de que o meu médico nunca olhou pra mim e pensou em “diabetes”, “pressão alta” ou “colesterol alto”. Na verdade, muitos médicos já me olharam e disseram “você faz exercícios, né”, mas eu não faço. Não penso duas vezes antes de comer em público. Não existe nenhuma crença sistemática sobre a minha personalidade ou a minha força de vontade.

Se você que está lendo é magro e se sentiu ofendido, você deve estar se baseando nos seus sentimentos. Eu entendo que pessoas magras também recebam ofensas. Sim, já senti desgosto e desconforto com o meu corpo. Já me senti inseguro e autocrítico. Já olhei no espelho e não gostei do que vi. Já ouvi conselhos maldosos de pessoas que se acham no direito de me sugerir ganhar peso. Já ouvi comentários rudes de pessoas que acham que é aceitável dizer “você deveria comer mais e ganhar alguns quilinhos” quando digo que estou cheia. Sim, entendo completamente a frustração e irritação das ofensas contra o corpo em comentários como “vai comer um hambúrguer!”. E acredito fortemente que campanhas dizendo que “mulheres de verdade têm curvas” são problemáticas. Tudo isso é terrorismo corporal também. Mas é um fato que as pessoas magras não lidam com o mesmo nível de preconceito.

Então, se você tem o “privilégio magro” e está decidido a lutar contra o terrorismo corporal e a discriminação contra os gordos, o que você pode fazer?

Se Educar sobre Saúde

Classificações modernas sobre o que é estar “acima do peso”(acima de qual peso?) ou “obeso” são frutos do índice de massa corporal (IMC). O IMC é um índice impreciso, enganoso e contém inúmeras limitações e falhas. Estudos conduzidos por pesquisadores do The British Medical Journal descobriram que “a determinação das categorias do que é normal, acima do peso e obeso são totalmente arbitrárias e contrárias a evidências fundamentais sobre a associação entre o índice de massa corporal e a mortalidade, um fato que destrói as pretenções científicas e valor de diagnóstico do índice”. Atividade física e nutrição afetam, sim, positivamente a boa saúde, mas o peso corporal, não! Não dá para dizer o quanto a pessoa se exercita ou o quanto sua alimentação é nutritiva pelo tamanho do corpo dela. Lembre-se de que você não pode presumir nada sobre a saúde ou o estilo de vida de ninguém apenas olhando para a pessoa.

Reavalie suas Intenções

Então, você não pode presumir nada sobre os outros. Mas e se alguém não for saudável? Por que isso é da sua conta? Não é verdade que o peso seja um indicativo de saúde ou que a obesidade seja uma “epidemia” precisando da “cura”. Entretanto, mesmo que isso fosse verdade, as pessoas gordas ainda merecem ser tratadas como seres humanos. Quem faz ofensas aos gordos com frequência costuma se defender dizendo que tem boas intenções. Elas só querem ajudar. Elas se importam com o estilo de vida saudável e o bem-estar dos outros. Mas pense um pouco: se você quisesse mesmo ajudar alguém a fazer escolhas saudáveis, você realmente acredita que ofender e desumanizar a pessoa vai funcionar? Seja mais humilde. O corpo dos outros, e até a saúde dos outros, não é da sua conta! Você não tem o direito de ofender ninguém. E nem de definir os valores de ninguém. Nunca.

Chame Atenção para a Falsa Preocupação

A falsa preocupação são os comentários ofensivos porcamente disfarçados de boas intenções. Alguns exemplos:

“Só estou preocupado com a sua saúde!”

“Você seria tão bonito se perdesse uns quilinhos!”

“É pro seu próprio bem.”

“Obesidade é uma grande questão na nossa comunidade/sociedade, e acho importante abordá-la.”

“Eu não odeio gente gorda, mas…”

“Estou do seu lado, mas…”

Ou qualquer comentário que dependa de um “mas”. Esses comentários não são só inúteis, como podem ser nocivos. Se você ouvir alguém tentando demonstrar falsa preocupação a alguém, você deve intervir onde conseguir. Pergunte se é da conta deles e por que estão sendo rudes e intolerantes. Cite alguns fatos sobre saúde que compliquem a história, porque a saúde humana é complexa, e nunca binária. Mostre, especialmente se for alguém próximo a você, que o que eles estão dizendo é opressivo.

Compreenda as Interseções 

Um homem branco cis heterossexual que é gordo tem uma experiência de vida diferente da de pessoas com outras identidades marginalizadas. Ser gordo é um estigma em todos os corpos, mas, em certos corpos, o fardo é maior. Além disso, pessoas que lutam contra distúrbios alimentares podem achar a expressão “privilégio magro” incômoda, porque não é um privilégio conviver com a marginalização e o preconceito que quem tem esses distúrbios sofre. É aí que devemos lembrar que as opressões se cruzam. O privilégio em certa forma não anula a opressão em outra forma. A opressão em uma forma não anula o privilégio em outra forma.

E, Principalmente, Humanize!

A principal questão é: como nós, seres humanos, devemos tratar uns aos outros? Você acha que definições arbitrárias de saúde ou concepções erradas sobre para onde vão nossos impostos são mais importantes que a humanidade de alguém? Você acha que o preconceito de uma pessoa privilegiada vence sobre a humanidade de uma pessoa marginalizada? Devemos sempre tratar o próximo com empatia, compaixão e respeito.

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Tradução: Carol Silveira

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